Monday, May 29, 2006

Sepultura: Por que não acabar?

Good Times...O Sepultura está prestes a lançar mais um álbum. Confesso a vocês que nem sequer lembro o nome do anterior, quanto mais deste que está para sair. Se preciso dessas informações a fim de acrescentá-las nesse comentário tenho que recorrer ao site oficial da banda (www.sepultura.com.br). Desculpe-me, mas não é por ignorância, não.

Em outros tempos as coisas não eram assim. Eu sabia meses antes qual seria o nome do próximo trabalho da banda. Sabia os nomes de cada trabalho já lançado (que não eram muitos na época), as músicas decoradas na ponta da língua, sabia até quem havia sido agradecido pela banda nos ‘thanks’ do encarte. Buscava desesperadamente saber o nome de cada música quando estas ainda estavam em fase de composição pela banda e sempre dava um jeito de conseguir um “advance tape”. Um novo trabalho do Sepultura significava pra mim muita ansiedade! Tenho algumas histórias interessantes, coisa de fã mesmo, nesse quesito. Pelo menos pra mim!

No “Schizophrenia” fui encher o saco de um amigo cedinho da manhã, acho que ele nem havia acordado direito, para poder ver “com meus próprios olhos” o disco e as mudanças, tão discutidas na noite anterior pela turma de headbangers, incitada por um privilegiado que, sozinho, tinha tido acesso àquela jóia durante a tarde. Falava-se que a banda havia traído o movimento (afinal de contas uma banda de death metal agradecer ao Salão Vila Vera “pelos nossos cabelos” era um sinal claro de “poseirismo”, traição total ao movimento underground. Isso, claro, nos anos 80, tempos de total intolerância!), dizia-se que a banda teria debandado para o thrash (o que era verdade) e outras coisa mais. Enfim, independente do que se falava sobre a banda, o mais importante era que ela dava o caldo que alimentava longuíssimos e animados debates, quase sempre acompanhados por cerveja ou pelo famoso quintinho (um quinto de uma garrafa de cachaça). Assim foi no “Beneath the Remais” e também no “Arise”.

No entanto, com o lançamento de “Chaos AD”, percebi, que já não havia mais aquela empolgação em torno da banda. Uma parte por culpa da própria banda, mas outra, sejamos justos, por culpa da cena a qual ela estava inserida. Os tempos eram outros. O Sepultura já não queria mais agradar a seus antigos fãs. Via-se com as asas de Ícaro, estava voando alto, mais alto que os garotos de Santa Teresa poderiam imaginar. Estavam morando nos EUA, transitavam entre as grandes bandas (Metallica, Black Sabbath, Ministry, etc). Olhavam nos espelhos e se viam deuses. O sol era o limite. Não imaginavam o quanto estavam perto dele.

“Chaos AD” mostrou-se um álbum em que a banda abandonava sua personalidade e passava a flertar sem pudor com o de outras. Em “Pavilhão 9”, por exemplo, a banda pisou fundo no industrial minimalista do MINISTRY. Também foi o disco que marcou o início da fase mistureba, de tribalização. A faixa “Kaiowas” ia da viola caipira à música indígena. E tome brasilidade. Na minha opinião, apesar dos, vamos chamar assim, contratempos, é um bom disco, com excelentes faixas, como por exemplo “We who are not as others”, “Chaos AD” e “New World Order”. Um porém, vale a pena registrar, foi o o cover em vão de “Polícia” dos Titãs. Não agregou valor nenhum ao trabalho e nem a banda merecia tal homenagem. Se era para fazer um cover politizado, dentro do contexto das demais músicas, que fizesse do NAPALM DEATH ou TERRORIZER. De qualquer forma, era uma maneira do Sepultura se entrosar em outras praias e aumentar seu público (e faturamento).


Após isso, deu-se início o fim. “Roots” foi o trabalho de esgotamento. Em todos os aspectos. Primeiro, o esgotamento pessoal. A cisão da banda ficou claramente percebida como uma grande manifestação de sacos cheios, que vinham se acumulando após anos de ensaio-turnê-ensaio. Egos super-alimentados pela industria musical, o excesso de influência da família nos rumos da banda, ciúmes (inveja?) e outros sentimentos negativos haviam se apossado de todos e o tiroteio tomou conta. O Sepultura se tornou uma panela de pressão e explodiu. Daí em diante há muito o que se contar e isso deixarei para outra oportunidade.


O ano de 2006 marca o vigésimo aniversário do lançamento de “Morbid Visions” (Cogumelo Records). Muita coisa mudou. A banda, o público, o mundo. Mas se esse trabalho consolidou o nome dos quatro adolescentes brasileiros no cenário underground mundial, o que está prestes a sair apenas representa mais uma página de um livro que deveria ter sido fechado há muitos anos. O que se vê hoje é uma sucessão de fracassos que não levam mais a banda ao patamar onde já estiveram. “Against” foi razoável, “Nation” foi medíocre e o seguinte (nem sei o nome), risível. Os integrantes já nem gostam mais do estilo que tocam e vivem de passado. Igor, empresário da moda, desloca-se entre o tecno e o rap. Andréas apelou até a Junior da dupla Sandy e Junior. Paulo... bom, Paulo continua o que era. Apenas Paulo. Derrick Green é um ex-vocalista de hardcore. Sem o peso para substituir um Max Cavalera da vida, apenas tapou o buraco deixado pelo hoje também sem brilho ex-vocalista. Entre mortos e feridos, a banda segue moribunda, tentando agradar a uma geração que não conheceu o Max Possessed, o Igor Skullcrusher, o Paulo Destructor e o Jairo Tormentor.

Decadência: O que Andreas foi fazer lá no mato???Passados vinte anos de “Morbid Visions” é triste olhar para a banda que em outras épocas ajudou a definir o estilo de tocar metal não só no Brasil, como em todo o mundo, e constatar que a única visão mórbida que nos resta a admirar é a da própria banda, excursionando com bandas de nu-metal, tocando em rodeios e dividindo o palco com uma banda de funk ou com um mero cantor de músicas infantis da pior qualidade.

Diante de tal cenário pergunto-me: por que não acabar? Por que não deixar o nome
SEPULTURA guardado com honra e mantendo orgulhosos aqueles que ajudaram a construir essa história? Tudo tem um fim. A história do SEPULTURA já chegou ao seu faz tempo. Hoje é apenas lucrar em cima do que ele representou. Sei que essa reflexão não é só minha. Muitos fãs ardorosos de outras épocas sabem do que estou falando. Claro que a esses a banda há muito deixou de reservar qualquer apreço (com exceção daqueles que concordam com os rumos atuais). Apenas dão-nos as costas.

Não quero criar um pensamento típico de torcida de futebol, rancorosa pela derrota, mas apenas expor que se é para manter uma banda apenas como quem mantém uma fonte de renda, sem brilho, sem ousadia, criatividade e, principalmente, respeito ao passado, é melhor acabar e formar outra com nome diferente. Não que a banda venha a ter o mesmo estilo dos tempos do "Bestial" ou do "Morbid", mas pelo menos que faça algo que não os envergonhe. Afinal de contas, o passado é melhor deixar no passado.

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Sepultura hoje em dia não existe mais como o Metallica...deveriam pelo menos mudar o nome da banda...Metallica quem sabe virar Popallica ou Merdallica.

7:18 PM  
Anonymous Anonymous said...

Marcelo detonou. Palavras sábias!!! Eu acho que a gente tem que se modernizar, evoluir, mudar mesmo. O problema é que o Sepultura mudou pra muito pior! Aliás, eu nem sei, na verdade, porque o último álbum que eu ouvi mesmo fio o Roots. E enjoei, hoje ele reside num case, totalmente arranhado e esquecido. Porém, Schizophrenia tá no ouvido toda vez que um impulso de agressividade bate na porta. Bons tempos!!!

André

8:01 AM  

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